terça-feira, 30 de junho de 2015

Caminho Sanabrês: 01-06 (5ª Etapa: Santa Marta de Tera - Mombuey, 36,6 km)

 
 
 
 
 
 
 
Lembro-me que fui o último peregrino a deixar o albergue! Eram 06h38 da manhã quando empreendi a maior etapa do Caminho Sanabrês: 36,6 km! Defini previamente 3 pausas para melhor gestão do esforço! Cerca de 1 km antes de Calzadilla de Tera e 10 km depois de Santa Marta de Tera, o Caminho ocorre junto a um bonito canal de rega tornando o percurso bastante aprazível (foto 4)! Às 09h30 realizei a 1ª das 3 pausas, em Olleros de Tera, na esplanada de um bar que se situava ligeiramente fora do Caminho! Pedi o habitual Aquarius com gelo e limão e acompanhei com pão, queijo e chouriço que trazia na mochila, finalizei com fruta fresca! Decidi, em virtude das temperaturas um pouco mais altas, que durante a caminhada não iria beber bebidas alcoólicas, apenas depois da jornada diária de Caminho! Isto porque o calor + bebida alcoólica + esforço = aceleração da desidratação! O Aquarius seria sempre uma escolha sensata, por ser uma bebida isotónica!
 
Voltando ao Caminho, cruzei-me com os já habituais peregrinos e passei por outros que não conhecia, situação que vinha reforçando aquela ideia "lugar comum" que quanto mais perto de Santiago, mais peregrinos! Depois de Olleros de Tera destaque para a passagem pelo Santuário e Embalse de Agavanzal! No caminho de acesso à barragem, está sinalizado um atalho alternativo para os peregrinos, sendo que os bicigrinos continuam pelo caminho convencional! Trata-se de um trilho de pé posto que culmina numa zona de bosque junto a uma linha de água (foto 5)! Foi precisamente aqui que reencontrei a Zelinda! Estava parada, a fotografar o local! Disse-me, gracejando, que já sabia que era eu, porque conseguia perceber que era a minha passada! Seguimos juntos pelo bonito trilho que entra na estrada já muito perto da barragem! Um pouco antes de cruzarmos o paredão do enorme embalse, surgiram, pela nossa, esquerda, a Sophie e o Abdulah, não tinham seguido pelo atalho, o que veio comprovar que este era mais curto do que o caminho principal! Cruzámos o paredão os 4, entre algumas fotos e amena cavaqueira! O Caminho prossegue por uma estrada secundária sempre junto à água, durante muito tempo, comprovando, de facto, a considerável dimensão da barragem! Em determinada altura o Abdulah começou a ver peixes perto da margem e tentou apanhar alguns, desprevenidos, dizendo-nos que era habitual pescar assim em Marrocos!
 
Assim continuámos juntos até Vilar de Farfón, onde parámos cerca das 11h30 num pequeno refúgio na saída da aldeia! Fomos acolhidos pela simpática hospitaleira, creio que era emigrante holandesa! Podíamos beber e comer algo, por donativo! Comi fruta que trazia na mochila e bebi água fresca! Descansámos! Carimbámos a credencial, enquanto a hospitaleira nos contou a sua história por aquelas bandas! A Zelinda disse-me para provar os biscoitos que eram muito bons! Acedi e de facto era saborosos! Àquela hora e já com os km que tínhamos percorrido qualquer coisa era boa para o aconchego do estomago e da alma! Com a energia e a motivação renovadas retomámos o Caminho! Umas vezes juntos, outras separados lá continuamos até Rio Negro del Puente! Eram 13h10, parámos junto ao albergue e, entretanto chegou a francesa Cristiane! Confidenciou-nos que a tendinite numa das pernas estava a complicar-lhe a marcha e que decidira encurtar as etapas a pé, fazendo alguns km de autocarro! A Zelinda aproveitou para dar uma espreitadela ao albergue que, segundo nos disse, era muito bom! Eu aproveitei para comer frutos secos, beber água e levantar um pouco os pés e as pernas! No fundo ganhar ânimo e recarregar baterias para os derradeiros 9 km até Mombuey! A maior parte do percurso ocorre por caminho paralelo à Estrada Nacional, um troço bastante descampado, tipo pradaria!
 
Entrei em Mombuey às 15h28, com os meus companheiros de jornada ligeiramente mais atrás! Um albergue muito modesto, creio que o mais modesto de todos até ali, de donativo e sem condições para fazer comida nem para lavar roupa! Após o já rotineiro e habitual ritual pós-chegada ao albergue, fui comprar comida&bebida, entrei numa farmácia para comprar uma seringa, pois necessitava de tratar as bolhas! Bebi uma canha num dos bares mais centrais! Durante a tarde combinámos o jantar, eu, a Zelinda, a Cristiane e o Ives! Tinham-nos indicado o único restaurante que servia menu, lamentavelmente estava fechado em virtude da doença de uma pessoa de família! A única hipótese seria o restaurante La Ruta (pelo qual já havíamos passado, à entrada de Mombuey)! Decidimos de imediato que não iriamos a pé, já chegava de caminhada naquele dia! Eu e a Cristiane partilhámos o preço do táxi! O Ives convidou-nos para uma bebida já no La Ruta, enquanto o jantar não era servido! Pagámos 11 euros, mas valeu a pena porque foi uma "cena" muito bem composta! Mas mais importante ainda, desfrutámos, confraternizámos e pusemos a conversa em dia deambulando pelas peripécias do Caminho!


segunda-feira, 29 de junho de 2015

Caminho Sanabrês: 31-05 (4ª Etapa, Tábara - Santa Marta de Tera, 22,7 km)

 

 
 
 
 
 
 
A alvorada foi às 06h00, em ambiente muito tranquilo, quase zen...com canto gregoriano (o hospitaleiro tinha-nos perguntando, em jeito de piada, se queríamos acordar com Led Zeppelin ou com canto gregoriano...eheheh....)! Tomámos o "desayuno" no albergue, muito variado e completo, havia café e leite, torradas, bolos e compotas variadas! Às 06h50 e depois do Hospitaleiro Almeida me ter tirado uma foto com o Patric, a Cristiane e a Zelinda (foto 1), despedimo-nos calorosamente do nosso anfitrião e seguimos Caminho em direção a Santa Marta de Tera! Ainda em Tábara não resisti a fotografar o sempre momento único do nascer do Astro Rei (foto 2)! O Caminho oficial passa por Bercianos de Valverde, contudo e como esta povoação não dispõe de qualquer serviço, foi sinalizada uma variante por Villanueva de las Peras, 200 metros mais curta e com serviços! Optei pela variante, assim como a maioria dos peregrinos que comigo caminhavam nessa manhã!
 
Às 10h00 chegámos a Villanueva de las Peras para uma pausa muito retemperadora! Sentei-me na esplanada do Albergue Alameda, na mesa onde já estavam a Sophie e o Abdulah, pouco depois chegou a Zelinda! Por ali estavam já também alguns peregrinos com quem me tinha cruzado ao inicio da manhã! Como a etapa era bastante curta, pouco depois do meio-dia, mais precisamente às 12h12 chegava ao albergue de Santa Marta de Tera! Alguns peregrinos tinham ficado antes da travessia do rio Tera (foto 3), mais precisamente em santa Croya de Tera, 1,5 km antes de Santa Marta de Tera! Após o banho retemperador e reparador e um momento de descanso noa albergue, fui até uma "tienda" local que abriu de propósito para os peregrinos (era dia festivo e estava quase tudo fechado por ali...), comprei comida&bebida para o jantar e para o início do dia seguinte! Percebi, pelos preços praticados, que dona da "tienda" se aproveitava sobre maneira do facto de não ter concorrência por aquelas bandas...! Ainda assim, sempre se poupam alguns euros em relação ao restaurante! Já mais à tarde deambulei pela praça central de Santa Marta de Tera, visitei o cemitério, nas traseiras da igreja e onde se encontra a estátua mais antiga que é conhecida do Santiago Peregrino (foto 4)!
 
Na receção da igreja estava uma senhora que carimbou a credencial e que nos explicou que, como era dia festivo, não seria cobrado qualquer valor no albergue! Disse ainda que às 18h00 haveria uma visita guiada à igreja para todos os peregrinos que manifestassem interesse e que custaria 1 euro por pessoa. Não demos o tempo por mal empregue, a visita foi interessante, à igreja e museu, (fotos 5, 6 e 7)! Entre as várias explicações que a guia nos deu, houve uma que mereceu particular destaque e que se prende com um fenómeno de luz equinocial que ocorre em cada determinado período de tempo! Trata-se de um fenómeno que chama muitos turistas a este templo românico. O dito acontecimento, como nos explicou a nossa anfitriã, ocorre 2 vezes por ano e coincide com os equinócios do Outono e Primavera! O sol penetra no altar principal da igreja, através do óculo da cabeceira e ilumina o capitel situado á esquerda da abside. Este fenómeno de luz equinocial foi descoberto há mais de uma década pelo já falecido e à data pároco de Santa Marta de Tera, Julián Acedo, que foi o principal divulgador desta dita maravilha da natureza! Os dias em que ocorre este fenómeno são a 21 de Março  e a 23 de Setembro (fotos 6, 7 e 8)!
 
Depois da visita e enquanto nos encaminhávamos para o albergue, notei que o tempo dava alguns sinais de mudança, algumas nuvens e aquele ar próprio de trovoada, ou de "tormenta" como se diz por Espanha! Notei que as minhas 2 bolhas estavam estáveis! O jantar foi composto por canja (daquelas instantâneas tipo Knorr...), mas só o facto de ser comida quente já era, só por si, retemperador! Depois feijão com chouriço (enlatado) e aquecido no microndas! Reguei o repasto com um pouco de vinho que a Cristiane gentilmente me ofereceu! Um pêssego para rebater! Pelas 22h00 começamos a recolher aos beliches! O descanso era sagrado e determinante para as jornadas seguintes!


sexta-feira, 26 de junho de 2015

Caminho Sanabrês: 30-05 (3ª Etapa, Granja de Moreruela-Tábara, 25,8 km)

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Dei inicio à jornada às 06h50 da manhã! Em solitário, dei os primeiros passos desde o albergue em direção às 2 placas que informam os peregrinos sobre a bifurcação com o Caminho Sanabrês, ou seja, quem pretenda continuar pela Via da Prata segue em direção a Astorga e quem quer optar pelo Caminho Sanabrês seguirá na direção de Puebla de Sanabria e de Ourense! A sinalética é muito clara, sem qualquer possibilidade de duvida ou de engano e encontra-se localizada na frontaria da igreja de Granja de Moreruela (foto 1) e na parte de trás do referido templo (foto 2)! Depois de passado o desvio para o Mosteiro de S. Maria de Moreruela, avistei os primeiros peregrinos da manhã, precisamente aqueles que tinha saído mais cedo do albergue. Cumprimentei a Zelinda, a peregrina italiana de Brescia e recordei inevitavelmente o episódio da véspera! Continuei na minha passada à medida que ía passando por outros peregrinos e desejando-lhes Bom Caminho! No caminho descendente de acesso à estrada que conduzia à ponte Quintos (foto 5) passaram por mim os 2 bicigrinos italianos que comigo na véspera tinham partilhado a mesa do jantar! Um deles saudou-me de forma efusiva com um "viva Portugal!" e eu respondi "viva Itália!".
 
Depois de atravessar a bonita ponte Quintos, o Caminho de Santiago ocorre por um magnífico e tranquilo trilho de pé posto ao lado do rio Esla. Este trilho culmina num miradouro altaneiro sobre uma espécie de Portas de Ródão lá do sitio (foto 7). Elegi de imediato este troço como o mais bonito desde Zamora! Parei por breves momentos antes da enorme reta que conduzia a Faramontanos de Tábara. Nesta localidade parei, às 11h00, para comer, descansar e carimbar a credencial! Às 12h57 cheguei à igreja de Santa Maria em Tábara! Carimbei a credencial e pedi informações sobre a localização do albergue, que ficava mesmo na saída da localidade! À saída da igreja tive uma agradável surpresa: reencontrei o meu companheiro que deixara em Riego del Camino por causa das dores no pé direito! Contou-me que, após aconselhamento médico, decidiu vir de transporte até Tábara, descansar 1 dia para retomar o Caminho em melhores condições físicas! No caminho para o albergue comprou um bastão articulado num pequeno mercado que havia em Tábara! Despedi-mo-nos com um "até já", contudo, não voltei a reencontra-lo! Enquanto caminhava para o albergue saciei a sede, refresquei-me numa fonte de água fresquíssima e enchi as minhas garrafas. À chegada ao albergue e num primeiro contacto com o hospitaleiro, de seu nome Almeida, percebi de imediato que ali se "respirava" o espirito do Caminho! Cama, jantar comunitário, roupa lavada e pequeno-almoço = donativo! Após o banho notei que tinha agora, na planta de cada pé, uma espécie de bolha! Restava-me continuar a proteger ambos os locais! A farmácia de Tábara estava fechada, mas ainda tinha no meu kit de primeiros socorros alguns pensos de silicone.
 
Após as compras da praxe passei por 1 ou 2 bares de Tábara para umas canecas de "canha" (a 1 euro cada, fiquei admirado por ser tão barato, creio nunca ter pago tão barato em outros Caminhos...)! Às 20h00 foi servido, com a colaboração de todos os peregrinos presentes, o jantar comunitário, confecionado pelo admirável hospitaleiro Almeida! A ementa foi composta por sopa, arroz à zamorana com morcela, fruta e um xupito caseiro! Creio que no total deveríamos ser uns 12 peregrinos, reconheci alguns, o alemão Stefan, os franceses Patric, Ives e Cristiane, a italiana Zelinda, a alemã Sophie e seu companheiro Abdulah, depois estava um casal de peregrinos que pareceram ser norte americanos e um outro casal de bicigrinos franceses! Enquanto decorreu a tranquila "cena" comunitária partilhámos algumas vivências do Caminho! O Almeida disse-nos que decidiu tornar-se hospitaleiro em casa própria por achar que o Caminho estava a começar a perder muito do seu espirito genuíno  e a entrar por uma vertente muito de negócio e de dinheiro (como estás certo amigo Almeida!). No final do repasto ofereceu-nos um medalhão em madeira com os dizeres "Ultreia Tábara" e com a seta amarela (foto 10), e cada um retirou de uma caixa, um cartão com uma passagem alusiva ao Caminho (todas da autoria do Almeida) que cada um teria que ler para todos! Deixo-vos com a passagem que a mim me calhou em sorte:
 
"Si te decides a dejar el
lastre que llevas encima,
podrás caminar com más
agilidad."
(Almeida)
 
Trad. "Se te decides a deixar o
          peso que levas em cima,
          poderás caminhar com mais
          agilidade."
          (Almeida)