quarta-feira, 9 de maio de 2012

Caminho Primitivo: Dia 6 (19 de Abril: Castro - Padron)


A saída ocorreu um pouco mais tardia que o habitual, às 08h35, uma vez que o pequeno-almoço foi servido apenas a partir das 08h00 da manhã, o que não foi, particularmente, uma fatalidade, pois a etapa até Padron não iria além dos 24 km. O dia esteve bem mais agradável que o anterior, ainda que tivesse chovido a espaços. Voltamos a subir acima dos 1000 metros de altitude, contudo já estávamos a uma cota considerável, pelo que não se notou muito o desnível. Subimos precisamente até aos 1.100 metros no local denominado Puerto Del Acebo, fronteira entre as Astúrias e a Galiza, momento que registámos para a posteridade com a foto da praxe! Às 11h00 da manhã parámos para retemperar forças no único bar de Puerto Del Acebo, tomámos 2 copos do tinto e comemos umas tapas. Aproveitámos também para carimbar a credencial oficializando assim a nossa entrada na Galiza! Às 14h30 e após uma subida com uma distância e inclinação consideráveis, chegámos a A Fonsagrada, uma vila também de grande dimensão! Após algumas hesitações e pedidos de informação, almoçámos no restaurante “Prados”! Estávamos a necessitar de comer em condições e desfrutámos do 1º almoço digno desse nome do Caminho Primitivo! A ementa foi composta por uma canja que aqueceu o corpo e o espirito, uma filete de ternera (vitela) do melhor que já comi, tarte de Santiago, café “solo” e “chupito” de aguardente “blanca”! Tudo isto por 9 euros por pessoa! Maravilha! Deixámos gorjeta à simpática empregada! Mais tranquilo e reconfortado trilhei, na companhia do Delfino, os 1.700 metros que nos separavam do albergue de Padron. Encontrámos o Rosalino Castro e a Pilar que também tinham almoçado em Fonsagrada. Registámo-nos no albergue, que pertencia à Proteção Civil, às 16h15. A máquina de cerveja e de snacks teve que ser reforçada mais do que uma vez (mais de cerveja do que de snacks, eh!eh!eh!)! Às 20h00 desfrutámos de um verdadeiro jantar comunitário que teve uma mãozinha especial do Rosalino Castro! Todos contribuíram com o que tinham e no final resultou uma refeição e peras! Neste jantar participaram todos os que tinham estado no albergue de Castro, mais um peregrino francês (de Tours), o François, com o qual já nos havíamos cruzado em Puerto Del Acebo e A Fonsagrada! Após a janta assistimos ao jogo de futebol entre o Sporting e o Atlético de Bilbao para a Liga Europa (que o Sporting viria a vencer por 2-1). Pudemos ver o jogo graças ao Javi (o amigo do Pepe) que tinha ligação à net através da sua tablete! Mas nem todos assistiram ao jogo, houve que não aguentasse a pressão e fosse para a cama mais cedo, e mais não digo! Chegaram já mais tarde 3 peregrinos espanhóis!

Fotos (autoria): António Delfino e Manuel Correia

terça-feira, 8 de maio de 2012

Caminho Primitivo: Dia 5 (18 de Abril: Berducedo - Castro)


Após uma noite de sono muito tranquila e de merecido descanso, graças ao facto de termos ficado com um dos pisos do Albergue Privado “Caminho Antigo”, exclusivamente por nossa conta, por apenas 15 euros cada um, lá nos aprontámo para sair do albergue, pelas 08h05 da manhã, já com uns bolitos e uma garrafa de leite com chocolate nos estômagos em jeito de “desayuno” quase volante. O pessoal que tinha ficado no albergue municipal já tinha passado cerca de 10 minutos antes. Com eles seguiam o Javi, a Pilar, a Viveca e o Jacob! Ainda estava bem fresca na nossa memória a aventura do dia anterior pela Variante dos Hospitais, era inevitável não se pensar nela! 

E não pude deixar de imaginar o que teria sido fazê-la com tempo limpo, decerto teríamos visto com mais deleite os cones e escarpas com enormes encostas até perder de vista, que devido ao denso nevoeiro não nos foi permitido contemplar! Troços de impor respeito que, devido à pouca visibilidade, nos passaram muito despercebidos! Embrenhados nestas divagações da mente, quase nem nos demos conta da prolongada subida por estrada, logo depois de Berducedo. A chuva tocada a vento forte começou a açoitar! Já perto de “A Mesa” cruzámo-nos com um casal de peregrinos espanhóis que, a espaços, nos fizeram companhia até à Barragem de Grandas de Salime! No trilho em descenso até à Barragem juntaram-se a mim e ao Defino, o Javi e a Pilar! Sempre pensámos que estariam na nossa frente!

O Javi estava com bastantes dificuldades físicas, ao nível dos joelhos e nos pés já com algumas bolhas que já tinham sido tratadas pelo Castro! Deu-nos a entender que seria difícil a sua continuidade no Caminho! Ficámos um pouco apreensivos e constrangidos, confesso! Era o nosso “velho” companheiro Javi, e o Javi não era um amigo qualquer! Em termos paisagísticos não resisto a destacar todo o caminho de acesso ao trilho de descida até à barragem, com enormes abetos de um e de outro lado e com o rio Navia a surgir no horizonte!  O trilho que desce até à Barragem é também ele muito bonito, no entanto exige algum cuidado, com uma caminhada mais técnica em virtude da grande quantidade de folhas de castanheiro prostradas no chão e que não deixavam ver o que estava por baixo! O “embalse” de Grandas de Salime, o rio Navia e toda a sua a paisagem envolvente foram, sem duvida, os pontos fortes desta etapa a solicitarem umas fotografias a preceito, com destaque para as que foram tiradas no e do miradouro da barragem! 

Só a chuva teimou em permanecer, tirando algum brilho à reportagem fotográfica! Pouco depois do início da subida, a seguir ao “embalse” fizemos uma pausa no bar do hotel Las Grandas para repousar um pouco e meter alguma coisa na barriga, carburante para o que ainda faltava até Castro! Neste bar estavam alguns turigrinos franceses com quem já nos tínhamos cruzado depois de Berducedo, seguiam com carro de apoio. Às 15h00 chegámos a Grandas de Salime, a maior vila por que tínhamos passado desde Tineo! Aproveitei para levantar dinheiro, a 2ª vez desde Oviedo! Não foi tarefa fácil despir a capa e a mochila, pois a chuva estava teimosa e ainda por cima caixa multibanco não tinha cobertura! Na saída de Grandas bebemos café e brandy para aquecer o corpo e o espirito! Os 2 km finais até Castro foram feitos por um caminho, que de caminho só tinha o nome, seria melhor chamar-lhe piscina, tal era a quantidade de água que caíra por ali! Chegámos ao albergue juvenil de Castro às 16h30, 32,3 km depois de Berducedo, debaixo de muita chuva, que não deu uma única trégua em todo o dia! Terminava a pior de todas as jornadas em termos de condições metrológicas adversas, decididamente!

O hospitaleiro facultou-nos o acesso um anexo junto ao albergue, onde nos pudemos livrar da roupa da chuva e das botas! Não resistimos a praguejar alguns impropérios à maldita intempérie! Não havia maneira de S. Pedro e de Santiago se entenderem! Raios! Foi mais uma etapa, como diriam “nuestros hermanos”, “rompe piernas”! Com um sobe e desde constante! Partilhámos um excelente jantar peregrino, onde marcaram também presença, para além do habitual grupo, 2 peregrinos de Barcelona, que se chamavam Pepe e Javi! A ementa constava de sopa de feijão, frango e “chipirones” (chocos)! De tarde já tínhamos desfrutado de uma variada coleção de cervejas, acompanhada de um delicioso presunto com azeite! Tudo isto no albergue! Os nossos receios em relação ao amigo Javi Mayor vieram, infelizmente, a confirmar-se! Estava muito debilitado fisicamente e decidira regressar a casa, via Grandas de Salime, na manhã seguinte! Terminaria o Caminho logo que lhe fosse possível! Deixou a sua capa ao Manuel Correia! Foi uma despedida geral muito sentida, com era de esperar!   

Fotos (autoria): António Delfino

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Caminho Primitivo: Dia 4 (17 de Abril: Borres – Berducedo, pela Variante dos Hospitais)


Saí do albergue de Borres, na companhia do Leonel, com mais esperança do que convicção, de que o tempo permitisse uma subida tranquila pela Rota dos Hospitais, que permitisse desfrutar da etapa rainha do Caminho Primitivo, por assim dizer! Eram 08h00 da manhã quando, a pouco e pouco, começámos a deixar para trás Borres e a ir ao encontro da montanha! A alternativa pela Rota dos Hospitais iniciou pouco depois de Borres e estava devidamente sinalizada com um marco e uma placa. Em boa verdade decidimo-nos por esta via, sem certezas sobre as condições meteorológicas que estariam lá no alto, mas sabíamos que, pelo menos, havia neve! Mais tarde soube que perguntaram a um velhote que andava a passear os cães, se havia muita neve lá no alto ao que o senhor respondeu que não havia! Pois, pudera, até onde ele tinha ido se calhar não havia! Eh!Eh!Eh!

Bom, é verdade que sonhámos durante bastante tempo com esta etapa, e não podíamos desistir dela assim de ânimo leve e sem um forte motivo! Pelo que todo o grupo: os 7 portugueses, o Javi, a Pilar, a Viveca e o Jacob, decidiu subir atravessando a variante dos Hospitais! Digamos que assumimos o risco, mas ainda assim um risco calculado! A parte inicial foi pacífica com o ascenso a progredir de forma gradual! Mas, logo depois e à medida que íamos ganhando altitude, o vento começou a soprar com fortes e gélidas rajadas, numa fase em que apenas se vislumbrava um salpico ou outro de neve. Após termos passado por La Paradiella e por Valla Amarilla e antes do primeiro ascenso digno desse nome, tocou, nos nossos sentidos, o primeiro sinal de alarme, foi precisamente junto às ruínas do primeiro hospital (albergue) denominado Paradiella, que o vento fustigou sem pedir licença, era forte e gélido! Nesta fase eu seguia na cauda do grupo com o Delfino, parámos para nos agasalharmos como exigiam as condições atmosféricas que ali se faziam sentir! Foi uma pausa de pouco mais de 5 minutos, ao longe avistámos alguns elementos do nosso grupo a iniciar o primeiro patamar de subida! 

Retomámos a marcha preparados a rigor para o frio e para o vento, ou antes se preferirem, para o vento frio e forte! Passámos por uma manada de vacas que acudia aos brados dos seus tratadores que lhes deitavam ração pelo chão. Lembro-me de pensar como era possível aqueles animais aguentarem aquelas condições adversas, mas não eram os únicos, um pouco antes já tínhamos passado por uma manada de cavalos que vagueava acima e abaixo por aquelas agrestes encostas! Ultrapassada com sucesso a primeira subida digna desse nome, começou a surgir mais neve e o vento parecia começar a fustigar de todos os lados! O nevoeiro baixou sem qualquer aviso, ou melhor já ali se encontrava, e engolia-nos à medida que ganhávamos altitude! A neve começou a surgir mais amiúde e deu para ver que era recente, pois estava fofa e cedia à nossa passagem. Fomos seguindo as pegadas dos que nos precediam e de facto isso veio a revelar-se uma vantagem para nós, pois evitámos pisar muitas vezes em terreno falso! Sem quase darmos por isso entrámos no epicentro da tormenta, numa mistura de vento forte e frio, com nevoeiro e alguma chuva gelada e, para ajudar à festa, com imensa neve no solo!

De quando em vez o dia parecia querer clarear, era o sol a tentar desesperadamente furar, sem sucesso, o denso nevoeiro! Não vos consigo descrever as sensações que me assolaram, a adrenalina estava ao rubro, os sentidos todos alerta e invadiu-me uma força e uma energia que nunca antes tinha sentido! Em 13 anos a calcorrear a penantes “seca e meca”, esta era de facto uma travessia que iria perdurar eternamente! Por isso havia que estar ao nível da sua exigência! Fomos progredindo com a serenidade possível, mas sem nunca vacilar! Ao chegarmos às ruinas do segundo hospital (albergue) denominado Fonfarón, o vento amainou subitamente! Por momentos pensámos em entrar, mas o chão deste antigo albergue estava cheio de água. Aproveitámos a trégua do vento, para aliviarmos as bexigas, para beber água e comer uma barrita. Mais à frente e após passarmos pelas ruínas do antigo hospital de peregrinos de Valparaíso, continuamos a marcha em direção ao Alto de La Marta (1.105 metros de altitude), atravessámos a estrada para nos embrenharmos de novo pela montanha! 

Foi o derradeiro round do confronto entre o homem e a força da natureza! Quase sem darmos por isso chegávamos ao Puerto Del Palo (1.146 metros de altitude), no entanto fiquei com a ideia que já tinhamos estado em locais de maior altitude, sensação que veio a confirmar-se como facto, um pouco mais tarde pelo gps do Manuel Correia que registou 1.285 m ainda antes do Puerto Del Palo! Registámos fotograficamente o que foi possível, incluindo a chegada ao Puerto Del Palo! Quando iniciámos o descenso (e que descida…!) que nos haveria de levar até Montefurado, estávamos com uma sensação de dever cumprido! À medida que desciamos e íamos perdendo cota, o vento amainava e o nevoeiro ía dissipando, mas a chuva teimava em permanecer! Para nós, pelo menos para mim, tinham sido simultaneamente os 14 km mais terríveis, mas também os mais fantásticos que alguma vez havia percorrido! Aquilo que à partida nos deixara mais apreensivos, o desnível acumulado de mais de 650 metros de altitude, veio a verificar-se que, afinal, tinha sido o menor dos nossos problemas! Ao chegarmos a Montefurado conseguimos finalmente avistar o nosso pessoal, desde o primeiro hospital que não os avistávamos! 

Tinham feito uma pausa para descansar, para se abrigarem da chuva e para comerem algo! Mais tarde soube que o grupo se dividiu em três partes e que o pessoal da frente chegou à povoação de Lago com mais de 1 hora e trinta minutos de avanço do segundo grupo!? Foi aqui que eu e o Delfino efetuámos também uma prolongada e merecida pausa! Às 17h45 chegámos a Berducedo, debaixo de chuva para variar. O albergue municipal já estava completo, pelo que nós continuámos até ao albergue privado denominado “Camino Antigo” e em boa hora o fizemos! Ficámos os 2 instalados condignamente, “solos” e com cozinha à nossa disposição! Casa de banho só para “nosotros”, enxugámos roupa, enfim, deu para algumas mordomias que nesse dia, e tendo em conta o rigor da etapa, nós agradecemos muito! Como em Berducedo não havia restaurantes eu, o Delfino e o Ramos comemos tortilha de jambon regada com um tinto Rioja, café e xupito! De seguida fomos ter com o resto da “tropa” a um bar onde já tínhamos estado durante o final da tarde, assistimos ao Bayern de Munique – Real Madrid, comprámos uma sopita instantânea para comer à deita no albergue e comprámos também o pequeno-almoço da manhã seguinte. Foi uma etapa de 26 km, de emoções muito fortes, mas que, feitas as contas, valeu bem a pena! Uma ultima nota para endereçar os meus  sinceros parabéns a quem sinalizou a Rota dos Hospitais! Um trabalho de grande qualidade e que merece ser exaltado!  

Fotos (autoria): António Delfino e Manuel Correia