quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Bolhas nos Pés do Peregrino!



Pés a quanto obrigas…
Os pés são a principal base de suporte do corpo. Qualquer peregrino sabe que após uns quilómetros com maior vigor ou não, no inverno ou verão são os pés que reclamam a sua atenção. Um dos rituais muito conhecidos em alguns albergues do Caminho Francês e mesmo em Fátima é a célebre lavagem dos pés. Também o poeta João de Deus tem um poema que salienta a importância dos pés e dos seus cuidados. Qualquer um de nós reconhece duas funções distintas naqueles que são os nossos pés:
- Uma estática (quando estamos parados em pé apoiados ou não);
- Outra dinâmica (quando andamos, portanto em movimento).
A função estática proporciona uma distribuição do peso do corpo e que se faz sobre os próprios pés. Qualquer indivíduo após umas horas de marcha tenta suportar-se nos seus pés. A função dinâmica muito mais complexa porque engloba um estudo da mecânica dos pés e de todo o corpo numa ciência denominada Biomecânica. Esta ciência, biomecânica, estuda as forças envolvidas no caminhar, correr, saltar, ou peregrinar a pé. Ao andar também procuramos amortecer as pressões que chegam ao pé e nem sempre assumimos posturas correctas, obrigando a esforços e agressões de outras estruturas do corpo como por exemplo os joelhos. Assim podemos reconhecer nos pés uma estrutura fundamental para todo o corpo, proporcionando uma interacção do corpo com o solo e com o meio, podendo mesmo condicionar o sermos capazes de executar os desafios a que nos propusemos. Aconselha-se a qualquer peregrino identificar sinais e sintomas de que algo não está bem nos seus pés, directamente nos tais apêndices nem sempre valorizados, que eventualmente têm odores próprios e são a razão da marcha que adquirimos quando criança.
As Bolhas
Um peregrino só se apercebe tardiamente da formação da bolha e em geral ficam muito admirados como aconteceu. A bolha surge porque houve atrito entre pés, meias, calçado e o solo. É mais frequente nas regiões em que o osso sobressai, como nos calcanhares, na fase anterior plantar do pé e nalguns dedos. A bolha é uma camada de pele que se destaca (por causa da fricção) e enche-se de líquido, geralmente transparente tipo água. Se algum vaso sanguíneo é lesado nesse processo traumático, então temos a presença de sangue. Reafirmo que sofri vezes sem conta deste padecimento, “ai bolhas, terror de qualquer peregrino” como lhes fazer frente. Seleccionei dois níveis de prevenção:
1º Nível:
A pele é uma estrutura complexa, com regeneração automática, mas com regras a respeitar… Quando queremos que a pele dos nossos pés resista ao traumatismo de fricção, sudação, aquecimento, eventualmente inflamação e ruptura temos de preparar a estrutura. A pele dos pés tem uma camada plantar habitualmente mais resistente, mas com limites e o calçado deverá ser adequado ao tamanho do pé, aos movimentos, ao piso escolhido, à estação do ano e aos desejos do peregrino. Numa primeira fase temos de conhecer os nossos pés, fazer uma impressão plantar usando tinta não tóxica e de fácil lavagem pode parecer infantil, porém revela-se esclarecedora onde está as fraquezas do nosso descontentamento. Todos os dias os pés devem ser lavados, massajados, secos e hidratados. As unhas limadas, com atenção aos limites ungueais, e pedir ajuda a um podologista será fundamental, pois é o profissional mais habilitado a orientar o peregrino com os seus pés. Assim, escolher um calçado adequado, ténis, bota de caminhada ou sapato de caminhada, oferece a oportunidade ao peregrino preparar também esse artefacto fundamental. Umas botas ou ténis da melhor marca mas “novos” proporcionam o pior andar ao pobre peregrino iludido nas propriedades apostas na marca do calçado. Não esquecer comprar um ou dois números acima do habitual, pois os pés vão “inchar” com a carga que lhes vamos impor. Fazer a rodagem do calçado, andar uns bons quilómetros, também já ouvi quem compra umas botas de caminhada e faz a rodagem nos centros comerciais, enfim é necessário dar forma e fôrma ao calçado. Outros conselhos neste nível são não lavar os pés com água muito quente na hora da largada, e se lavar, secar muito bem, usando até papel higiénico para uma secagem eficaz. Lubrificar depois com um creme, pode ser vaselina esterilizada, creme gordo, mas não “forrar” os pés de creme. Basta uma camada fina e não esquecer entre os dedos. Também importante a selecção das meias ou peúgas… As meias de algodão com as costuras para fora, estão perfeitamente ultrapassadas pela facilidade em adquirir meias de caminhada adaptadas à estação do ano. No inverno de um tipo e no verão versões “cool”. Existem marcas brancas relativamente baratas. Não usar meias velhas e desgastadas… Se tiver planeado mais de 20 km de etapa, mudar de meias com obrigatório secar os pés… A prevenção pode salvar uma peregrinação. Em princípio o desistir a meio traz muita frustração ao peregrino e deve ter atenção a cuidados básicos. Pés, meias, sapatos…
2º Nível:
O peregrino inicia a caminhada e a pele dos pés começa por ficar avermelhada tipo queimadura de fricção, segue-se a formação da vesícula com mais ou menos líquido… Antes de ulcerar e deixar o peregrino “a pé e parado” há-de tomar iniciativas. Após alguns quilómetros de marcha o pé sua, aquece e inflama. Se sentir algo incómodo, não adiar, ir ver sempre o que se passa… Pode ser uma pedrita, uma planta que pode agravar uma lesão em origem. Assim, após algum tempo de caminhada, parar, descalçar o “artefacto ténis ou bota” retirar a meia e ver, inspeccionar. Pedir ajuda a um companheiro de jorna. Cheirar mal dos pés não é grave, mas ulcerar é muito grave. Se estiver apenas vermelho, usar as técnicas universalmente recomendadas, lavar, secar e hidratar… Deixar o pé respirar, usar uma sandália ou chinelo por momentos. Depois calçar sempre depois de hidratar convenientemente… Se houver uma bolha… Inspeccionar o conteúdo, se é um liquido transparente (é o habitual), se é sangue ou se é pus. A presença de sangue ou de pus exige os cuidados de um profissional de saúde. Se for líquido transparente tipo água, dimensionar a bolha. Se for de pequena dimensão, desinfectar com água ou soro, secar e aplicar um penso adequado tipo “compeed” com um tamanho à respectiva bolha. Claro que esta estratégia é adequada após descanso dos pés e antes de calçar. Se a bolha é média a grande dimensão, há a necessidade de drenar o líquido. Usar então uma agulha esterilizada com linha também esterilizada. Adquire-se seda de sutura de feridas que vem em embalagem esterilizada. Pode parecer difícil, mas é muito simples, pica-se a bolha após desinfecção exterior, e faz-se um laço, ficando uma parte da alça de “seda” dentro da bolha e outra fora. Isto funciona como um dreno mantendo o esvaziar da bolha. Depois de algum tempo aplicar um penso “compeed” e calçar. Não deve introduzir qualquer desinfectante dentro da bolha, nem álcool, nem “betadine”, nem nada. Deve deixar o organismo responder à agressão e colaborar. Os fios de “cozedura de Bolhas” devem cair por si, não necessitando outros cuidados além da desinfecção. Não retirar a pele da bolha, respeite o seu corpo não o mutile.
Material para Bolhas:
- Água, soro, desinfectante tipo betadine (se não for alérgico);
- Creme hidratante, ou mesmo vaselina;
- Seda de Sutura, à venda nas casas de material cirúrgico;
- Pensos “compeed” anti bolhas de pequena e media dimensão.

Por: DOCTORPEREGRINO, em 28-10-2010
Partilhado do Diário do Peregrino de Santiago
Fotos: António Delfino

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

De Sul a Norte do concelho de Nisa pelo Caminho de Santiago!



Decorreu no passado domingo, dia 8 de Janeiro do novo ano de 2012 a nossa segunda jornada de preparação para o Caminho Primitivo! E que jornada! 38 km de uma ponta a outra do concelho de Nisa, pelo Caminho de Santiago! O dia não podia ter estado mais a preceito, pese embora algum vento frio que se fez sentir durante a parte da manhã. Tal como previamente combinado, o amigo João José Temudo transportou-nos, na viatura da INIJOVEM, até à Horta do Sôr (entre o Vale do Peso e Alpalhão) e aí demos inicio, 20 minutos antes das 8 da manhã, à nossa travessia pedestre em direcção à ponte sobre o rio Tejo, linha divisória do Alto Alentejo com a Beira Baixa e termo do nosso concelho! Ao passarmos na Fonte da Feteira contemplámos a primeira vieira do Caminho que ali foi colocada pela Junta de Freguesia de Alpalhão. Pelas 09h30 da manhã realizámos uma primiera paragem para retemperar forças com um pequeno-almoço repleto de iguarias regionais e regado com um bom tinto, pois "com pão e vinho se faz o Caminho!". O local escolhido para o repasto não poderia ter sido melhor: junto à Ribeira do Figueiró já com assinalável caudal, com o pontão de João Viegas como pano de fundo e paredes meias com a mítica Vereda da Sardinheira! Memórias de outras travessias peregrinas que por aqui ocorreram me vieram inevitavelmente à memória! Pouco depois das 10h00 retomámos a marcha pela Vereda da Sardinheira até à EN18, que percorremos durante 1,5 km até apanharmos de novo caminho em direcção à Capela do Santo António. Entrámos em Nisa pelo meio-dia, abrimos o apetite (já bastante aberto...) com um Favaios no Café da Fonte da Pipa e completámos a 1ª parte da travessia até à Quinta do Vale das Vinhas, mais uma vez gentilmente cedida pelo companheiro António Ramos Amaro e onde nos aguardava o amigo João José com uma ementa de Rancho por si cozinhado a preceito! Desfrutámos de 1h30 de merecida pausa, pois a 2ª metade do Caminho seria mais exigente, como se veio a confirmar, não apenas por ser mais comprida, mas acima de tudo pela diferença do relevo, pois a parte norte do concelho de Nisa é muito menos plana e mais acidentada! Retomámos a jornada pouco depois das 13h30 pelo EM526 até ao Cruzeiro de Santiago e daí pelo caminho do Porto das Carretas, Pé da Serra, Monte Cimeiro, Monte dos Barreiros, travessia da EN18, Portela do Atalho e ponte sobre o rio Tejo, onde chegámos pelas 17h30 e com o dia a começar a escurecer! Não resisto a realçar esta última parte do Caminho, com uma vista única e deslubrante sobre as Portas de Ródão, sobre o Castelo de Ródão e sobre o inevitável rio Tejo! Depois de saciada a sede na fonte junto à ponte regressámos a Nisa de viatura, uma vez mais graças à boa vontade do amigo João José Temudo, boa vontade essa que não se ficou apenas pelo transporte dos caminheiros e pela confecção almoço, pois já nos aguardavam na Quinta do Vale das Vinhas umas fevrinhas da matança, preparadas pelo nosso amigo! Como podem constatar o nosso dia não poderia ter corrido melhor! Para mim e para os companheiros António Ramos Amaro, João José e Hugo Casimiro ainda correu melhor, pois assistimos via TV à vitória retubante do Benfica ante o U. de Leira por uns expressivos 0-4, resutado que lhe deu a liderança isolada do campeonato! De facto há dias assim! O próximo treino conjunto ficou marcado para o dia 29 de Janeiro! Até lá boas caminhadas a todos! Quero ainda agradecer aos companheiros João José e António Ramos Amaro pela simpatia e disponibilidade (fica prometida a vieira para ser colocada na Quinta do Vale das Vinhas!), agradecer também à INIJOVEM pela cedência da viatura e agradecer ainda ao meu primo Hugo Casimiro pela sua presença e dizer-lhe que, a pouco e pouco, se está revelar um caminheiro de respeito!

Fotos: António Pimpão e Sérgio Cebola