sexta-feira, 6 de maio de 2011

Diário do Caminho de Finisterra: 1º dia, 17 de Abril, Santiago/Negreira (21 km)












Após mais um momento delicado, a despedida dos nossos companheiros António Delfino, António Pimpão e Rosalino Castro, momento particularmente difícil para o Alexandre, demos inicio ao Caminho de Finisterra! Eram 11h20 da manhã! O andamento foi obviamente mais rápido, pois o grupo estava reduzido a metade e o ritmo tornou-se, por conseguinte mais homogéneo. Ainda em Santiago tempo para um momento algo hilariante e insólito, o Alexandre e o Leonel precisavam de água e entraram no que lhes pareceu ser um café ou bar e pediram garrafas de água, a senhora muito decidida logo lhes foi dizendo para comprarem noutro lado, porque ali era uma casa de meninas e era mais caro (lol!). Após risada geral, prosseguimos o Caminho! Os 21 km até Negreira tiveram um pouco menos de asfalto e mais terra batida, subiu-se um pouco, bebeu-se muita água, não que tivesse demasiado calor, mas ainda eram alguns resquícios da maleita da véspera, pelo menos da minha parte e da do Alexandre. A principio apenas passámos por um peregrino espanhol, mas à medida que progredíamos fomos encontrando, aqui e ali, grupos organizados (turigrinos) que apenas estavam a fazer o Caminho Santiago/Finisterra. Destaco a passagem por Ponte Maceira, com uma vista fabulosa da ponte sobre o rio. Com uma novidade em relação a Maio de 2010, entretanto abrira um café mesmo à entrada da ponte (muito bem pensado...), aproveitámos para descansar um pouco e saciar a sede. Às 16h00 chegávamos ao albergue Lua em Negreira, somando os 14,9 km de Teo a Santiago com os 21 km de Santiago a Negreira, acabávamos de palmilhar 36 km numa só jornada, nada mau mesmo! O albergue por ser privado cobrava um pouco mais (9 euros). Após o banho fomos até ao café que já conhecíamos de 2010 para comer qualquer coisa mais consistente. Eu e o Leonel comemos "ensalada" mista e o Alexandre decidiu-se por uma pizza de cogumelos, de "postre" (sobremesa) um gelado para cada um! Ainda neste café conhecemos um peregrino português, o Fernando, que estava a fazer o Caminho Santiago/Finisterra em solitário, era amigo do Daniel Oliveira e do Gabriel Soares dos Restauradores da Granja, o mundo é mesmo pequeno! Durante o final da tarde demos um passeio por Negreira para comprar mantimentos para o pequeno-almoço da manhã seguinte. Cerca das 20h00 jantámos num restaurante muito acolhedor no centro de Negreira (onde o Alexandre disse ter estado com o Rosalino em 2010...), eu e o Leonel comemos canja, merluza grelhada e fruta, o Alexandre ficou-se pela canja e pela fruta, ainda não queria sobrecarregar muito o estômago. Cerca das 21h55, acabei de escrever estas últimas palavras na recepção do albergue, fui para a cama ouvir um pouco de música, relaxando o corpo e a mente para a etapa de 33 km até Olveiroa.

Fotos: Leonel Gomes e António Pimpão

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Diário do Caminho Português: 9º dia, 17 de Abril, Teo/Santiago de Compostela (14,9 km)








Retomámos o Caminho às 06h37 da manhã, ainda noite escura, pelo que durante algum tempo, até próximo das 07h20, tivemos que recorrer uma vez mais às lanternas e aos frontais para iluminar as marcas. A Mamiko saiu connosco do albergue de Teo e achou muita piada às nossas manobras para iluminar as setas e as vieiras para não sairmos do Caminho. Tanto eu como o Alexandre já nos sentíamos em forma, uma boa noite de sono aliada a uma dieta de emergência colocou-nos quase como novos! Os 14,9 km que separavam o albergue de Teo da Catedral de Santiago de Compostela foram percorridos a um ritmo muito bom. Passámos por Milladoiro, a ultima localidade antes da Compostela. Às 10h00 da manhã e no meio de muita emoção, chegávamos à Praça do Obradoiro defronte da Catedral de Santiago de Compostela! Para alguns de nós era a terceira vez que ali chegávamos caminhando e cada uma delas teve a sua história! É uma sensação única quando se ali chega nesta condição de caminheiro, de peregrino, de andarilho! Esta chegada marcou também o reencontro com o grupo de estudantes peregrinos do Porto e de S.Tirso (acho eu...), fomos ovacionados por eles com uma enorme salva de palmas à nossa chegada à Praça de todos os sonhos! As fotos da praxe, as mensagens e os telefonemas para casa, as saudações mutuas entre todos por mais um objectivo cumprido e comprido! Era também visível alguma emoção no rosto da Mamiko, todos estávamos com as emoções à flor da pele, cada um à sua maneira! De seguida fomos até à oficina do peregrino carimbar as credenciais e levantar as compostelanas, oficina essa que desde a nossa última visita em Maio de 2010, tinha entretanto mudado de instalações. Cumprido mais este ritual do Caminho, fomos até um dos muitos bares da zona histórica de Santiago para tomar o pequeno-almoço. O Alexandre entretanto foi até uma farmácia ali perto para comprar comprimidos de alcachofra, já se sentia muito melhor, mas ainda assim não queria facilitar. Eu também me estava a sentir muito bem! Todos sabíamos que se aproximava a hora em que o grupo se iria separar: o Rosalino e o Pimpão apenas tinham programado a sua peregrinação até Santiago, o António Delfino em virtude da sua lesão muscular não quis arriscar até Finisterra e decidiu ficar com eles em Santiago, para irem até Finisterra, mas de autocarro. Eu, o Alexandre e o Leonel continuaríamos até onde a terra acabava e o mar começava, assim estava escrito!

Fotos: António Delfino e António Pimpão

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Diário do Caminho Português: 8º Dia, 16 de Abril, Caldas de Reis/Teo (30,9 km)













A partir das 03h30 da manhã já pouco ou nada dormi até à alvorada geral que foi pelas 05h45. Fui à casa de banho algumas vezes com diarreia e algum mal estar no estômago. Primeiro suspeitei de fosse intoxicação alimentar e voltei a lembrar-me do jantar do dia anterior cujo aspecto geral da comida não me tinha agradado muito. No entanto não vomitei e a diarreia deu tréguas! Mas a sensação de mal estar e de enfartamento persistiu! Logo pressenti que a jornada não iria ser fácil e de imediato veio-me à memória a última etapa do Caminho em 2010 (de Finisterra para Múxia), onde também tive um dia duro devido a uma maleita semelhante! Mas tinha que reunir todas as energias disponíveis e ir aos limites se necessário! Por isso à hora marcada pus-me a pé, lavei-me, vesti-me, arrumei a trouxa na mochila! Já tinha tomado uma pastilha Maalox Plus que aliviou ligeiramente a coisa. Socorri-me de comprimidos Figatil que o Alexandre tinha dado ao Pimpão, tomei logo um. Não quis comer nada, tive algum receio, apenas bebi muita água para não desidratar, comeria mais tarde! Às 06h40 da manhã retomámos o Caminho, desta feita em direcção ao albergue de Teo. Comecei a suspeitar que fosse uma gastroenterite ou algo do género, o que mais me afligia era uma sensação de enfartamento, estômago inchado. Mais tarde lembro-me de comentar com o Alexandre (que também tinha sentido algo semelhante durante a noite...) que estas situações podem surgir fruto um pouco da vida de andarilho, comer aqui e ali, fora da rotina habitual, enfim uma serie de situações que podem criar predisposição para o organismo entrar em conflito. Comecei então a chegar à conclusão que se trataria de uma descarga da vesícula ou da bílis, figadeira, enfim... parafraseando o Amigo Alexandre "...nós vamos judiando o fígado e ele depois se queixa..". Um pouco antes de chegarmos a Pontecesures, fomos "controlados" pela Guardia Civil que nos pediu as credenciais do peregrino, isto tudo por causa das fraudes e roubos praticados por falsos peregrinos. Um pouco antes deste controlo e a muito custo lá consegui comer uma barrita de cereais que o Pimpão me tinha dado (acabou por me dar 2...). Em Pontecesures no café-bar Táxi lá consegui comer 2 torradas com manteiga e um pacote de sumo. Já nas imediações de Padrón voltámos a cruzar-nos com o simpático grupo de alunos peregrinos. Foi também por esta altura que conhecemos uma peregrina japonesa muita simpática, a Mamiko Katayama, trazia uma mochila enorme (mais tarde viemos a saber porquê...). Estava há alguns meses a estudar em Londres. Com o rio Sar ao nosso lado lá fomos entrando em Padrón, parecia haver por ali uma grande feira, pois havia carroceis e barracas por todo o lado. Visitámos a Igreja de S. Tiago para contemplarmos o padrão onde foi amarrada a barca do Apóstolo que deu o nome a esta cidade. No interior da Igreja agradeci a Santiago ter-me dado forças para ali chegar, pois foi nesta fase que me senti pior. Fizemos questão de aqui carimbar a credencial pelo simbolismo que este local tem no contexto geral do Caminho Português! Quando retomámos a travessia de Padrón, mandei o pessoal para a frente, eu queria ir a uma farmácia comprar uma pomada que me fazia falta e comprimidos para a minha maleita. Desviei um pouco do Caminho e lá fui. A simpática farmacêutica após lhe comunicar os meus sintomas indicou-me o motilium, deveria tomar 2 cerca de meia hora antes de cada refeição. Li as indicações terapêuticas e eram mesmo aquele tipo de sintomas que eu estava a sentir. Ao retomar o Caminho e já na saída da cidade o Rosalino tinha ficado para trás para esperar por mim. Deu-me um comprimido para mastigar cinet e algum tempo depois comecei a sentir-me bastante melhor, a sensação de enfartamento começava a desaparecer! A sede apertava cada vez mais, bebi muita água. Já não muito longe de Teo, parámos num café, para descansar um pouco e beber algo. Eu bebi meio litro de água e o Rosalino uma cerveja e uma tapa de arroz com lulas. Mais à frente os nossos companheiros também descansavam um pouco antes da tirada final até ao albergue de Teo, penso que numa localidade de seu nome Faramello. Deixámos os nossos amigos a descansar um pouco mais e arrancámos para uma ponta final muito rápida da nossa parte, eu ansiava por chegar ao fim, tirar a mochila, tomar banho e descansar. Confesso que fiz esta ponta final em "piloto automático", foram as últimas energias a virem ao de cima, cheguei ao albergue de Teo nos limites, no "red line"! Mas consegui! Conseguimos! Eram 14h35 quando tirei a mochila das costas, já no interior do albergue. O restante pessoal chegou pouco depois. O banho foi de facto revigorante! Aproveitei para lavar roupa e por a enxugar, havia sol e algum vento. Quando me deitei na cama para um par de horas de sono e descanso, a jornada passou-me como um flash pela mente, antes da sesta merecida telefonei ao meu pai que fazia 68 anos. Levantei-me por essas 19h30, precisava de comer algo mais consistente, pois até esta altura apenas tinha comido 2 barritas de cereais, 2 torradas com manteiga, um sumo e muita água. Lá fomos até ao restaurante que ainda distava um pouco do albergue, fez-nos companhia a Mamiko. Comi uma quantidade generosa de caldo galego e pêssego em calda. O Alexandre sentiu-se pior e nem jantou, recolheu ao albergue. Foi nesta altura que falei um pouco mais com a Mamiko, puxei do meu melhor inglês e, entre outras, coisas expliquei-lhe o que se tinha passado comigo durante o dia e também que o Alexandre estava com uma indisposição e não iria jantar. Ela ficou muito preocupada, mas disse-lhe que tudo ficaria bem! Após a janta comprámos mantimentos para a manhã seguinte e recolhemos ao albergue, eu e o Pimpão, o Leonel e a Mamiko foram a um café procurar por internet e o Rosalino e o António Delfino ficaram ver um jogo de futebol no restaurante. Como a hospitaleira já estava no albergue aproveitámos para nos registar. O Alexandre já estava melhor, mas ainda assim tinha lançado fora. Mas contava que uma boa noite de sono limpasse o organismo. A Mamiko que , entretanto chegara, abriu a mochila em cima da sua cama e começou a sacar montes de frascos de cremes..., um deles caiu e ía apanhando o bom do Alexandre..., a Mamiko desfez-se em mil desculpas..., foi um momento hilariante! Estava explicado o peso e o volume da mochila da Mamiko! Confesso que ainda ponderámos e reflectimos sobre a continuidade da travessia até Finisterra, tendo em conta as maleitas que se faziam sentir, inclusive o António Delfino também se queixava de uma lesão muscular numa das pernas! Esperaríamos pela manhã seguinte para ver como nos iríamos sentir. O albergue era muito tranquilo. O simpático grupo de estudantes peregrinos deveria ter continuado para Santiago, pois não tinham ficado neste albergue.

Fotos: António Delfino, António Pimpão e Leonel Gomes