domingo, 1 de maio de 2011

Diário do Caminho Português: 5º Dia, 13 de Abril, Rubiães/O Porriño (36,6 km)













Começámos a etapa às 06h40 da manhã. Parei um pouco com o António Delfino a seguir a Fontoura para despir alguma roupa e descansar um pouco, o tempo estava a aquecer. Em Valença do Minho, um pouco antes da ponte internacional sobre o Rio Minho que separa Portugal de Espanha, parámos algum tempo no Bar Cais Café para comer o bacalhau e os filetes que tinha sobejado do jantar da véspera em Rubiães, regados a rigor com um fresquíssimo verde branco da região. Valença do Minho surpreendeu-me pela sua dimensão, nunca pensei que fosse uma cidade tão grande. Na passagem da fronteira registámos o momento com algumas fotos à entrada e em cima da ponte. Lembro-me que em jeito de piada comentámos entre nós que tínhamos levado 1 hora a atravessar a ponte, uma vez que nela entrámos às 12h00 e quando chegámos ao outro lado já eram 13h00 (hora espanhola). Num bar de Tui bebemos mais vinho verde e comemos tapas, lembro-me que foi uma senhora portuguesa que nos serviu, havia também alguns clientes portugueses nesse bar com os quais trocámos algumas impressões. Aproveitámos para jogar no euro-milhões espanhol. Tirámos algumas fotos junto à imponente Catedral de Tui e também junto ao albergue com a sua simpática hospitaleira de seu nome Teresa, que nos carimbou as credenciais. Mais à frente efectuámos nova paragem mais prolongada (o calor apertava e asfalto também não ajudava...) no bar "O Mirón" em Ribadelouro para beber estrella galicia e comer tapas. Nota menos nesta etapa, a interminável zona industrial de O Porriño com imenso trânsito. Chegámos ao albergue de O Porriño às 18h45 (hora espanhola). Jantámos o menu do peregrino na Bocateria Simplicio na zona histórica desta cidade, que incluiu café e o incontornável "xupito". Regressámos ao albergue um pouco antes das 22h00. Neste dia percorremos a maior distância numa só jornada, deixámos o Minho (Portugal) e entrámos na Galiza (Espanha) e à chegada ao albergue de O Porriño travámos conhecimento com um simpático grupo de estudantes do norte, que presumo terem começado a peregrinação em Valença do Minho.

Fotos: António Delfino

sábado, 30 de abril de 2011

Diário do Caminho Português: 4º Dia, 12 de Abril, Lugar do Corgo (Vit. de Piães)/Rubiães (32,9 km)













Após um um frugal pequeno-almoço preparado pelo Jacinto que foi o culminar de um verdadeiro tratamento "vip", pusemos de novo pés ao Caminho, eram 06h40 da manhã. Parei com o António Delfino a 1 km de Ponte de Lima para beber café e comprar pilhas para a máquina fotográfica. Voltámos a parar cerca de 1 hora em Ponte de Lima para descansar, visitar alguns pontos de interesse e para comer bifanas grelhadas no pão regadas com bom vinho verde de tinto (conhecido nesta zona por sangue de boi) servido em malgas de porcelana. O Alexandre comeu salada mista. À saída do restaurante o António Delfino comprou um relógio numa loja de chineses (o que trazia parou de trabalhar...) e o Leonel comprou uma bandeira de Portugal. O trilho que seguiu até Arcozelo foi muito bonito com imensas latadas de videiras. Um pouco antes tínhamos passado pelo albergue de Ponte de Lima, um dos melhores do Caminho Português! Seguiram-se 2 paragens para reposição de liquidos (o calor começava a apertar), primeiro no bar Ribario em Arcozelo com um viveiro de trutas para pesca desportiva e turística, onde aproveitámos também para carimbar a credencial e um pouco mais à frente em Arco imediatamente antes da dura subida da Serra da Labruja. Uma subida com um desnivel acumulado de 320 metros e com uma inclinação considerável, nomeadamente, até à Cruz dos Franceses. A progressão teve quer ser feita com algumas pausas pelo meio. Ao chegarmos ao Alto da Portela/Labruja efectuámos uma pausa um pouco mais prolongada numa fonte de água fresquíssima, qual oásis perdido! Até Rubiães foi sempre a descer, por alguns trilhos e caminhos com muita pedra solta. Chegámos ao albergue de S. Pedro de Rubiães às 17h10. No restaurante Constantino jantámos o que se pode designar por verdadeiras doses industriais de bacalhau, filetes, costeletas e salada. O norte do país tem fama de servir bem e em Rubiães não estiveram pelos ajustes! Inevitavelmente lá mandámos embalar o que sobejou do jantar para o pequeno-almoço da jornada seguinte. O dia de hoje pautou-se por uma travessia particularmente dura, não tanto pela distância percorrida, mas acima de tudo pelo calor e pela subida da Serra da Labruja. O passeio de cerca de 1 km do restaurante até ao albergue ajudou um pouco à digestão do jantar e para fazermos a ante-visão da jornada seguinte.

Fotos: António Delfino

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Diário do Caminho Português: 3º Dia, 11 de Abril, S. Pedro de Rates/Lugar do Corgo (Vitorino de Piães) (35,170 km)




Voltámos ao Caminho bem cedo, eram 06h30 da manhã, ainda era escuro, aqui ou ali, principalmente fora das localidades, foi necessário recorrer ao precioso auxílio dos frontais e das lanternas. Pela frente aguardava-nos uma longa etapa, pelo que arrepiar Caminho era preciso! Às 10h15 da manhã e depois de atravessarmos a ponte do rio Cávado que une Barcelinhos a Barcelos, chegávamos a esta última! Logo depois da ponte efectuámos uma breve paragem para unir todo o grupo e para tirarmos algumas fotos, não só junto ao galo de Barcelos, mas também a alguns monumentos locais. Já próximo da saída da cidade, optámos por uma paragem um pouco mais prolongada para tomar pequeno-almoço num simpático café, onde fomos muito bem atendidos por uma simpática jovem a quem a mãe natureza tinha sido muito generosa! Já bem guarnecidos e, por conseguinte, bem mais animados lá prosseguimos a nossa jornada. Já durante a tarde destaco a passagem pela conhecida “ponte das Tábuas”, sobre um curso de água muita límpida a convidar a banhos, situada um pouco antes de Balugães, povoação onde parámos para descansar e reabastecer de água. Já um pouco antes de Balugães eu tinha ligado para a D. Fernanda (o tal simpático casal que há cerca de 8 anos acolhe peregrinos em sua casa…), para lhe dizer que já estávamos perto ao que a Sra. me disse para virmos à vontade, que ainda andava na distribuição do correio (era carteira…), mas que a sua filha Mariana nos iria receber. De resto a D. Fernanda já estava a contar connosco, eu já tinha entrado em contacto com ela ainda em Nisa. Enquanto repousávamos um pouco em Balugães, passaram alguns peregrinos, incluindo uma peregrina dinamarquesa Joanne, com quem já nos havíamos cruzado e que acabaria por ficar connosco no final da etapa. Passou também de carro um senhor bastante simpático a perguntar se precisávamos de alguma coisa e para estarmos tranquilos que já estávamos perto do Lugar do Corgo! Já mais repousados encetámos a parte final da jornada com forte determinação e pelas 15h40 chegávamos à casa da Fernanda, do Jacinto e de sua filha Mariana, em Lugar do Corgo, freguesia de Vitorino de Piães. Fomos recebidos pela Mariana que foi logo tratando de nos instalar, eu, o Alexandre, o Pimpão, o Delfino, o Rosalino e o Leonel ficámos num anexo em madeira no quintal nas traseiras da casa, muito bem apetrechado com muitas camas e casa de banho, a Joanne como era a única mulher partilhou a casa com os nossos anfitriões. Instalamo-nos, tomámos banho, mudámos de roupa, aproveitámos para descansar um pouco no jardim envolvente aos “nossos” aposentos. Estava também uma senhora de mais idade com a Mariana, que presumi ser sua avó. Puseram-nos muito à vontade, só esse pequeno, mas muito importante, gesto serviu para afastar grande parte do cansaço da jornada! Mas o melhor veio depois! Mais tarde chegou a Fernanda, após mais um dia na distribuição de correio, mais tarde, já ao jantar, disse-nos que também exercia um cargo na Junta de Freguesia de Vitorino de Piães, apesar de reconhecer não ter grande apetência para esse tipo de cargos. Logo se foi apresentando, perguntando se estava tudo bem connosco, se estávamos a ser bem tratados e se precisávamos de alguma coisa. Ofereceu-nos cerveja fresca para começar, mais tarde e enquanto travávamos amena cavaqueira na mesa do jardim, presenteou-nos com aquilo que achei ser um verdadeiro manjar dos Deuses, tendo a conta a hora do dia e a longa jornada que tínhamos realizado: almôndegas de bacalhau acabadas de fritar, pão, azeitonas, pistachos, tremoços e vinho verde tinto! Que mais se pode pedir a esta gente simpática e que provou saber receber! Falámos de nós, falámos do Caminho! A Fernanda disse ser a primeira vez que recebia peregrinos do Alentejo (aliás já me tinha dito isso ao telefone dias antes…) e como tal fazia muita questão de nos ter em sua casa! Nós tentámos retribuir o melhor que pudemos! Mais para o final da tarde fomos dar uma volta pelas imediações até ao bar mais perto, levámos uma grade vazia de superbock, havia que repor o stock em casa da Fernanda! Ao jantar fomos confrontados com alguns manjares do Minho: papas de sarrabulho, rojões com salada de alface, feijão com arroz e couve, omeleta para o Alexandre, café, digestivos da região (de meter respeito…) e vinho do Porto. Já perto do final do jantar conhecemos o Jacinto que chegou mais tarde e, surpresa das surpresas, afinal já o conhecíamos…, tratava-se do simpático senhor que nos tinha abordado em Balugães quando descansávamos junto à Fonte! Apesar destas pessoas fantásticas não cobrarem nada pela sua hospitalidade, entre nós chegámos a consenso quanto ao donativo a deixar, porém ficámos com a convicção de que não há valor que pague a forma simpática, fantástica e abnegada com que fomos recebidos por este casal e pela sua filha, bem-haja Fernanda, Jacinto e Mariana por nos terem ajudado a “trilhar” o Caminho de Santiago, muito obrigado por tudo! Daqui vos digo que foi o melhor acolhimento e hospitalidade de todos os Caminhos de Santiago que até ao dia de hoje já palmilhámos! Após a janta ainda fomos andar (como se ainda não tivéssemos andado que chegasse.lol!) mais para ajudar à digestão de tão intenso repasto! Fomos até ao café ver um pouco de televisão e já com o serão bem avançado regressámos aos nossos aposentos para nos deleitarmos com uma boa noite de sono. Ainda ouvi um pouco de música no telemóvel antes de o sono começar a rondar.

Fotos: António Delfino