terça-feira, 15 de junho de 2010

O Diário do Caminho: 19º Dia, 7 de Maio, Foncebadón – Fuentes Nuevas




















O primeiro grande momento do dia foi a passagem por mais um local de grande simbolismo do Caminho Francês: a Cruz de Ferro! Situa-se próxima de Foncebadón, a 1504 metros de altitude, um dos monumentos mais simples, porém um dos mais antigos e emblemáticos do Caminho. Sobre um monte de pedras se levanta uma pequena Cruz de Ferro, presa no alto de um tronco de madeira de uns 5 metros de altura. Sobre aquele monte e junto à Cruz, os peregrinos seguindo a tradição, deixam uma pedra para pedir protecção na sua peregrinação. Existe ao seu lado uma pequena ermida dedicada a Santiago. Eu deixei 4 pedras por mim, pelas minhas filhas e pela minha esposa, 3 dessas pedras eram das proximidades, mas um delas eu tinha trazido da Serra de S. Miguel, na freguesia de S. Simão, concelho de Nisa, uma pequena pedra de quartzito. Em Manjarin parámos num albergue bastante original, perdido no meio da natureza, tudo muito medieval, com os seus 2 proprietários muito bem trajados de cavaleiros templários (segundo consta 1 deles diz mesmo que é o último cavaleiro templário…). Mas há outras coisas bastante peculiares neste albergue, tais como diversas placas com as direcções e distâncias em km para uma serie de cidades localizadas em diversos pontos do globo, muito original lá isso é verdade! Aproveitámos para carimbar a credencial a troco de um donativo. Servi ainda de tradutor a uma peregrina holandesa que queria pedir um iogurte a um dos hospitaleiros, para o seu namorado que era vegetariano. Não havia água quente, as casas de banho eram latrinas, mas havia acima de tudo muito boa vontade por parte dos peculiares hospitaleiros. Passámos ao local de maior altitude em todo o Caminho, logo a seguir à Cruz de Ferro, num local onde existe uma Estação Militar, a 1.517 metros de altitude! Foi precisamente neste local que começou a temperatura começou a descer, começou também a chover e ao mesmo tempo a cair alguns farrapos de neve. Aproveitámos para parar em El Acebo, não só para comer qualquer coisa, mas também para enxugar um pouco a roupa e para nos aquecermos. Em Molinaseca, uma vila muito interessante do ponto de vista arquitectónico, efectuámos também uma breve paragem técnica para retirámos a roupa da chuva, comer mais qualquer coisa e tirar algumas fotos na rua central. Retomámos o Caminho em direcção à cidade de Ponferrada, por aqui também tirámos algumas fotografias, na ponte à entrada, com a ajuda de um peregrino italiano, no centro histórico e ao magnífico castelo templário. Já na saída de Ponferrada voltámos a parar no bar “La Máquina”, para descansar um pouco, beber umas “canhitas” e comer umas tapas! Acabamos por ter mais um percalço no percurso e na etapa de hoje: o Caminho não passava por “Quatro Vientos” como erradamente constava do nosso guia, pelo que tivemos que andar um pouco mais que o previsto, até Fuentes Nuevas, que não tinha albergue, ainda assim ficámos (pela primeira vez no Caminho) num Hostal muito bom, de seu nome Monte Claro! Iríamos, por isso, usufruir de algumas mordomias, até então muito pouco habituais: nada de horários rígidos, casa de banho no quarto e um belíssimo menu do peregrino por 9 euros. Voltando um pouco atrás, chegámos a Fuentes Nuevas às 17h20, com mais 36 km na “bagagem” e nos pés! Tinha sido a maior etapa até agora! Após devidamente instalados no hotel, fomos fazer compras numa “tienda”, a senhora que nos atendeu era de uma simpatia extrema, quando lhe dissemos que já estávamos a caminhar há 19 dias, ela respondeu gracejando que, no seu caso, 19 dias, seriam para ir de Fuentes Nuevas a Santiago! O Luís continua no nosso grupo e hoje, após o jantar no bar do hotel, ensinámo-lo a jogar à sueca! Amanhã contamos reencontrar o Alexandre em Vega de Valcarce!

Texto: Sérgio Cebola
Fotos: 1 a 3, 6 a 11 e 13 a 21 ( A. Delfino), fotos 4 e 12 (A. Pimpão)
1 - Partida do albergue paroquial de Foncebadón
2, 3 - Cruz de Ferro
4 - Estação Militar (1.517 m de altitude)
5 - A caminho de Manjarin
6, 7, 8, 9 - albergue "templário" de Manjarin
10, 11, 12, 13, 14, 15 - Molinaseca
16, 17, 18, 19, 20 - Ponferrada
21 - Fuentes Nuevas

segunda-feira, 14 de junho de 2010

O Diário do Caminho: 18º Dia, 6 de Maio, Astorga – Foncebadón















Quero dizer claramente que esta etapa foi das que mais me encheu as medidas: muito trilho de bosque até Rabanal del Camino e um espectacular trilho de montanha desde Rabanal até uma das mais míticas aldeias de todo o caminho Francês: Foncebadón! A única aldeia do Caminho que chegou a estar totalmente desabitada. Há 200 anos tinha 200 habitantes. Hoje tem 2 habitantes fixos e graças aos peregrinos tem 2 restaurantes, 1 alojamento rural e 3 albergues! Voltando ao princípio, partimos de Astorga às 07h00 da manhã com 25,4 km para percorrer até Foncebadón. Desde os Pirenéus que não apanhávamos etapas de montanha, hoje iríamos “matar saudades”: saída de Astorga a uma cota de 870 metros de altitude para culminar em Foncebadón a 1440 metros, com um desnível acumulado de 570 metros em 25 km de distância, portanto, subidas suaves, nada agressivas! “Desayunamos” no conhecido bar do Caminho “O Cowboy” em El Ganso, tínhamos bocadillos de queijo e chouriço feitos de véspera, bebi vinho tinto e o Delfino bebeu canhas. O simpático e bem-falante proprietário do “Cowboy” tirou-nos umas fotos para a posteridade! A seguir a Rabanal, já na subida para Foncebadón, bebemos da fresquíssima água da Fonte do Peregrino e reabastecemos os cantis. Chegámos às 13h15, tirámos também algumas fotos junto à placa com o nome da aldeia e junto à mítica Cruz de Foncebadón. Ficámos alojados no albergue paroquial, que só abria às 14h00 mas que, graças à boa vontade do seu hospitaleiro, de nome José Ramón, abriu mais cedo, por volta das 13h30. Podíamos comer e “desayunar” no albergue desde que colaborássemos na preparação das refeições. Este albergue também aceita donativo. O Castro, o Pimpão e o Luís tiveram que esperar um pouco mais à porta do albergue, pois chegaram mais cedo, por volta das 12h30. A partir das 13h30 lá nos fomos instalando, tomámos banho, lavámos roupa e descansámos um pouco. Hoje foi também um dia em que avistámos imensos peregrinos, talvez por Astorga ser também ponto de partida do Caminho Francês. Durante a tarde, bebemos umas “canhas” no bar do albergue “Convento”, na companhia do André e do Luís. Não vimos o António e em relação ao Javi já há alguns dias que não tínhamos noticiais suas. Espero que o Alexandre tenha resolvido o compromisso que o levou a adiantar-se no Caminho! Jantámos cedo. O Delfino ajudou na confecção do jantar, eu ajudei a servir a comida, o André e o Pimpão lavaram a loiça! A ementa foi sopa de lentilhas com chouriço, esparguete com molho de tomate e fruta, tudo muito bom! Bebemos também café no albergue! Antes do jantar partilhámos um momento de reflexão entre todos, em que cada um se apresentou aos demais, falou das suas motivações para o Caminho, o hospitaleiro leu também um poema muito bonito e que vinha muito a propósito da nossa aventura na rota jacobeia! Após a janta demos um passeio por Foncebadón, tirámos mais algumas fotos e contemplámos a idílica paisagem circundante da aldeia! O quarto do albergue era muito frio e sem aquecimento, pelo que tivemos que reforçar o saco cama com mais algumas mantas!

Texto: Sérgio Cebola

Fotos: António Delfino
1, 2 – Entre Astorga e El Ganso
3, 4, 5 – Bar “O Cowboy” em El Ganso
6 – Fonte do Peregrino (Rabanal del Camino)
7 – Outra fonte, a caminho de Foncebadón
8 - Foncebadón
9- A Cruz de Foncebadón
10 – Cavalos em Foncebadón
11, 12 – No bar do albergue “Convento”
13 – O jantar no albergue paroquial
14 – A Capela (ao lado ao albergue)

domingo, 13 de junho de 2010

O Diário do Caminho: 17º Dia, 5 de Maio, Villadangos del Páramo - Astorga












Não foi fácil preparar as coisas no albergue de Villadangos, pois não havia luz e entre ir à casa de banho às escuras e arranjar a mochila junto à lareira do albergue, apenas com o auxílio do frontal e da luz de uma máquina de bebidas, não foi, de facto, tarefa fácil. Às 07h00 da manhã lá retomámos o Caminho até Astorga, final da 17ª etapa. Um percurso bem mais interessante, já com alguns trechos de bosque, um pouco diferente do tão maçador e barulhento tráfego automóvel, ainda assim sem perder muito de vista a nossa já longa companheira de Caminho, a Nacional 120! Breve paragem na bonita ponte sobre o rio Orbigo, em trabalhos de beneficiação. Em Hospital de Orbigo ficámos a saber que lá se realizam uns torneiros medievais em homenagem a um episódio histórico que ali teve lugar. Em Santibañez de Valdeiglésias “desayuinámos” pela 2ª vez, bocadillos de presunto e queijo preparados de véspera com uns tintos, servidos num bar local. Tirámos um fotografia à saída de Santibañez, junto a mais um monumento ao peregrino e outra ainda no bonito Cruzeiro de Santo Oribio, já com uma vista privilegiada, qual miradouro, sobre San Justo de La Veja e Astorga. Chegámos a Asturica Augusta (Astorga) às 13h50 e de facto é uma cidade que respira muitos séculos de História: tem uma catedral magnífica, um palácio episcopal onde funciona o Museu dos Caminhos. Foi por aqui que andámos, já depois do banho e da merecida pausa para descanso. Em relação aos nossos companheiros de Caminho o Luís continua no nosso grupo, apesar de ter ficado noutro albergue, o António (de Lugo) optou por ficar num hotel e o Alexandre foi para a frente, porque tem uma encomenda para entregar ao hospitaleiro do albergue de Villafranca del Bierzo , da parte de uma sua amiga. Ficámos de nos reencontra em Vega de Valcarce. Aproveitei a tarde para escrever uns postais uns postais para a família que coloquei num marco do correio no albergue onde ficámos, de seu nome San Xavier. Jantámos no restaurante “La Paloma”, a ementa do peregrino: sopa de caldo e carrilleras al horno, uma espécie de bochechas de porco. No dia de hoje percorremos mais 28,7 km.

Texto: Sérgio Cebola

Fotos: 1 a 10 e 12 (António Delfino), foto 11 (António Pimpão)

1 – Na saída de Villadangos

2, 3 – Puente de Orbigo

4 – Villares de Orbigo

5 – Santibañez de Valdeiglésias

6 – Cruzeiro de Santo Oribio

7, 8- Vista sobre San Justo de La Veja e Astorga

9 – Astorga

10 – Palácio Episcopal de Astorga

11 – Catedral de Astorga

12 – Capela de Santiago (Catedral de Astorga)