quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Por caminhos de Nisa com o Caminho Francês no horizonte








Enquanto quase todos se encontravam a comemorar a quadra do Entrudo, nós optámos por uma 3ª feira de Carnaval, mais ou menos radical, “disfarçámo-nos” de caminheiros e fomos andar sem destino, por caminhos do Concelho de Nisa, no que consideramos ter sido um excelente treino para o Caminho Francês de Santiago, pois permitiu-nos ensaiar diversas situações, qual simulacro para o verdadeiro teatro de operações. Às 09h00 da manhã com a mochila às costas, contendo mantimentos para 1 dia de marcha, permitindo, de certa forma, ensaiar o peso a levar (e a não levar…), lá partimos do Largo da Devesa, após um cafezito matinal na Adega do Marquês, pela “Azinhaga da Água”, atravessando mais à frente a estrada do Patalou, para seguir em direcção aos “Jogadores”, atravessar a estrada do Poio rumo à Ladeira de Roma, onde num local conhecido por “Abelouras” parámos para pequeno-almoço. Após esta pequena paragem para retemperar forças, aguardava-nos o primeiro percalço e ao mesmo tempo o primeiro teste à nossa capacidade de ultrapassar obstáculos: ao fundo da Ladeira de Roma, nas passadeiras da Ribeira de Nisa, a corrente era muito forte, com muita vegetação arrastada pela água, a obstruir as passadeiras, conclusão: falta de segurança para a nossa travessia. Não nos restou outra alternativa que não fosse retroceder a marcha, subir em Direcção ao Couto da Costa da Murta, atravessar o canal da Bruceira (que se transformou também numa pequena aventura…), descer pela antiga “zona residencial”, se assim se pode chamar, da Central da Bruceira e, finalmente, transpor a Ribeira, na ponte na estrada para Montalvão. Seguimos um pouco mais pelo asfalto até um caminho que nos conduziu ao Monte da Francisquinha, aqui avistámos 2 veados que, com muita pena nossa, não nos deram tempo para a fotografia! Chegados ao Monte da Fonte dos Cantos, passámos pelo “Ti Severino” que nos avisou para o inevitável “rapazes, vem lá chuva!” e veio mesmo, fazendo-nos companhia durante os 5 km que separam o Monte Queimado do Pé da Serra. Às 14h00, no alpendre dos “Amigos do Pé da Serra” aguardámos, algo famintos pois a hora já era avançada, pela Ricardina que mostrando uma vez mais toda a sua simpatia, generosidade e disponibilidade, nos levou frango assado e batata frita pala pala! Após mais de 1 hora de merecido repasto, bebemos café e digestivo na Tasca do “Ti Marzia” gentilmente oferecido pelo amigo Júlio Almeida. O Castro aproveitou para comprar uma navalha que iria ser, por certo, muito útil para o Caminho! Como o relógio não parava, tivemos que nos por de novo ao caminho, pois ainda faltavam alguns km para Nisa. Após uma passagem muito ao de leve pelo percurso pedestre PR5: À Descoberta de S. Miguel, prosseguimos pela estrada em Direcção a Nisa para, muito perto do pontão sobre o Ribeiro do Nisorro, flectirmos para a direita, por um caminho ao lado do Nisorro até este entrar na Ribeira de Nisa. Transpusemo-la de novo, desta feita por um antigo passadiço em cimento, muito próximo de um local conhecido pelo “Porto das Carretas”. Diga-se, em abono da verdade, que esta parte foi das mais bonitas de quase todo o percurso: devido ao imenso caudal, tanto do Nisorro, como também da Ribeira de Nisa, que proporcionaram efeitos visuais verdadeiramente edílicos sobre os açudes aqui existentes! Chegados às imediações do sítio de Nossa Senhora da Graça, lá fomos continuando o nosso já longo périplo, pelo caminho da Barroca do Vale Louro e deste ao Monte da Carreira Velha. Atravessámos a estrada, continuando por esta ancestral via até ao caminho do Retiro, deste ao Vale da Boga, transpusemos o Ribeiro de Santo André, vulgo Ribeiro da Bruceira, Azinhaga da Fonte do Cão e Nisa. 33,5 Km com tudo q.b.: caminhos, asfalto, linhas de água, subidas, descidas, chuva e bonitas paisagens! Ainda assim e pese embora a distância percorrida estávamos bastante recomendáveis. Se tivéssemos que dar um nome a esta rota seria, como sugeriu o Pimpão, a “Rota dos Montes”, senão vejamos: Monte da Francisquinha, Monte da Fonte dos Cantos, Monte Queimado e Monte da Carreira Velha, não esquecendo o Monte maior, a Serra de S. Miguel, mas esta ficaria para o próximo treino! Após termos contribuído para a sustentabilidade do comércio local com umas “bjecas” na Adega do Marquês e um jantarzito na Cantarinha, com um merecido banho quente pelo meio, ainda fomos a casa do Castro dar uma vista de olhos no perfil das etapas do Caminho Francês, muito em especial, na proposta do Pimpão! Contamos muito em breve, até porque o tempo urge, voltar a outros caminhos de Nisa, em direcção à Serra de S. Miguel, algures entre S. Simão e Santana, com subida ao alto da Serra, onde em tempos idos pontificou um santuário alusivo a este Arcanjo, precisamente onde hoje se situa um marco geodésico de primeira ordem que assinala os 463 metros de altitude, ponto mais alto de todo o Concelho de Nisa, o famoso “pnoco”! Até lá boas caminhadas!!!

Texto e fotos: Sérgio Cebola

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Caminhos

Para quê, caminhos do mundo,
Me atraís? — Se eu sei bem já
Que voltarei donde parto,
Por qualquer lado que vá.

Pra quê? — Se a Terra é redonda;
E, sempre, tem de cumprir-se
A sina daquela onda
Que parece vai sumir-se,

Mas que volta, bem mais débil,
Ao meio do lago, onde
A mãe, gota d'água flébil,
Há muito tempo se esconde.

Pra quê? — Se a folha viçosa
Na Primavera, feliz,
Amanhã será, gostosa,
Alimento da raiz.

Pra quê, caminhos do mundo?
Pra quê, andanças sem Fim?
Se todo o sonho profundo
Deste Mundo e do Outro-Mundo,
Não 'stá neles, mas em mim.

Francisco Bugalho, in "Paisagem"
Foto:António Pimpão

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

O meu sentir de andar nisto

Desde jovem que sempre me senti um pequeno aventureiro, aos 18 anos depois de concluir o meu curso industrial na cidade da Beira (Moçambique), eu e o meu grande amigo de infância Nelo Mota, resolvemos ir, entre boleias e a pé, desde a Beira (cidade onde vivíamos) até Cahora Bassa. Na altura, ainda durante a construção da barragem, o sentimento era a procura de novos mundos, de novas emoções, assim como, a procura de um pouco de liberdade em relação à dependência financeira dos nossos pais.

Na altura não foi fácil tomarmos essa decisão, além da guerra colonial tínhamos pela frente cerca de 900 km.

Passados 31 anos e depois de algumas surpresas da vida, em 2005, também em comunhão com o amigo João Miguéns, pensámos em nos aventurar numa caminhada, qual prova de orientação (!?), de Nisa a Fátima, organizada muitíssimo bem pelo José Louro, a que o amigo Sérgio já fez referência num dos textos deste blogue.

Foi o retomar de prazeres que anteriormente já tinha sentido, a paixão pela natureza, a sensação de liberdade quando caminhamos, e acima de tudo o convívio e as novas amizades.

Em 5 anos já fiz pequenas, médias e grandes rotas, como se diz na gíria já tenho muitos quilómetros na bagagem (mochila), mas é para continuar enquanto me sentir bem, tanto física como psicologicamente.

Esta aventura no Caminho Francês de Santiago é um misto de aventureirismo e de pão para o espírito, o sentimento de peregrino prevalece ao do caminheiro, a Fé, que muitas vezes esquecemos, empurra-nos de quando em vez para este tipo de desafio!

Texto e foto: Rosalino Castro