segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

O 4º Elemento do “nosso” Caminho Francês

Ao nosso trio de ataque, passe a publicidade ao programa desportivo da RTPN, ir-se-á juntar em Saint-Jean-Pied-de-Port, um 4º elemento a quem lancei o repto em Agosto do ano passado, o António Delfino! Um nisense cujas circunstâncias de vida o tornaram, desde há muito tempo a esta parte, emigrante em França, em Joués-Les-Tours, no coração do Indre-et-Loire e que, muitos anos mais tarde, por outros acasos de vida se viria a tornar meu cunhado. Sabedor das nossas aventuras pelo Caminho de Santiago, ficou, como muito bem diz o povo, com a “pulga atrás da orelha” quando lhe confidenciei o que estávamos a planear fazer em 2010. Contei-lhe como tinha sido a nossa experiência no Caminho Português do Interior em 2007 e como esta nos tinha motivado para, pouco tempo depois, começarmos logo a conjecturar a realização do Caminho Real Francês! É claro que em pouco tempo o amigo António Delfino passou de curioso a entusiasmado até que, em vésperas de partir para o “país dos outros”, me disse sem mais delongas nem rodeios que se iria preparar para fazer o Caminho Francês connosco! Fiquei contente pela sua decisão e dela dei conhecimento ao Castro e ao Pimpão que também partilharam da minha alegria, pois seria mais um companheiro de jornada! Mas confesso que também fiquei com algumas reservas, pois se para nós já seria um desafio arrojado, para o amigo Delfino seria verdadeiramente épico! Teria pouco mais de 7 meses para se preparar, acima de tudo fisicamente, uma vez que não tinha experiência de caminheiro ou de randonneur, como se diz em francês! Se é certo e sabido que o “nosso” Caminho começa no momento em que tomamos a decisão de o trilhar, posso afiançar-vos que O do amigo Delfino começou naquela tarde tórrida do dia 26 de Agosto de 2009, no nº 28 da Rua dos Combatentes da Grande Guerra em Nisa! E de certeza que O acompanhou no dia seguinte na sua longa viagem até ao Indre-et-Loire! E não mais deixou o Caminho, pois sei, através das conversas que temos partilhado no ciberespaço, que o Lac des Bretonniers em Joués tem sido o seu campo de treino desde Setembro do ano passado, onde tem vindo a intensificar a sua preparação física e sei também que se tem informado bastante sobre o Caminho Francês, quer através da Internet, quer através de livros, tendo comprado aliás um muito bom, segundo me confidenciou. Sei ainda que as suas filhas, as minhas sobrinhas Sónia e Sylvie até lhe compraram um bastão articulado, daqueles em alumínio, bastante útil para o Caminho! Portanto, se hoje escrevo este post no blogue, faço-o, porque há poucas horas quando conversávamos no msg, o António Delfino me disse e passo a citá-lo: “Contem comigo para o Caminho!” e eu daqui lhe respondo, bem-haja, amigo António, bem-vindo ao “nosso” Caminho Francês para Campus Stellae!

Texto: Sérgio Cebola

Foto: António Delfino

sábado, 9 de janeiro de 2010

A preparação para o Caminho


Como já foi dito neste espaço da blogosfera, a preparação do Caminho começa no preciso instante em que nós, em consciência, decidimos fazê-lo! Todos os pormenores devem ser ponderados, até mesmo aqueles que nos parecem de somenos importância, merecem ser objecto de análise rigorosa, pois podem transformar-se, já em pleno Caminho, em “por maiores” dores de cabeça! Aspectos como a alimentação, a preparação física (e mental…), a componente médica, o equipamento e a componente financeira, merecem, de facto, algum tempo de dedicação antes de nos pormos, efectivamente, ao Caminho!

A Alimentação

Nunca é demais relembrar que uma alimentação saudável contribui para a melhoria dos nossos níveis de rendimento físico e mental e até para a melhoria da nossa auto estima. Durante o Caminho é aconselhável não realizar almoços muito pesados nem demasiado regados com vinho ou licores, evitar, para quem fuma, fazê-lo nas subidas de montanha. O jantar deverá ser feito entre as 20h00 e as 21h00 (atenção ao horário de fecho dos albergues), e deverá ser rico em vegetais. Durante o Caminho a alimentação deverá constar de frutas, principalmente banana (rica em potássio), laranja (vitamina C), leite, iogurte, barritas de cereais ou frutas secas. Deve beber-se bastante água, principalmente quando se sua muito, podendo complementar-se com bebidas isotónicas para equilibrar as perdas devido à transpiração. Devem ser evitadas bebidas com cafeína, como a coca cola, pois causam perda de líquidos e, por consequência, aumentam a sede. Em última análise a questão alimentar é sempre uma decisão pessoal, no entanto é aconselhável a informação prévia sobre os hábitos alimentares nas regiões do Caminho, tais como, refeições típicas e pratos tradicionais.

O Treino físico e… Mental

Desenganem-se os que acham que a parte física é mais importante que a mental ou vice versa, pois, como em quase tudo na vida, é no meio que se encontra a virtude, pelo que se conseguirmos alcançar um pleno equilíbrio entre as duas partes, estaremos em muito boas condições para, com mais discernimento e sangue frio, conseguir ultrapassar as dificuldades do Caminho! È conveniente aprender alguma coisa sobre pedestrianismo e caminhadas, antes de comprar o seu equipamento e de começar a andar. As primeiras caminhadas devem ser leves, efectuadas pela manhã ou ao anoitecer, treinando os exercícios respiratórios: inspirar lenta, contínua e profundamente, ao mesmo ritmo da passada. A expiração sempre mais longa que a inspiração. Aumente progressivamente a distância e a constância do treino, o ideal seria percorrer a quilometragem média diária das etapas do Caminho (20 a 30 km), mas como o ideal é, muitas vezes, intangível, o melhor será mesmo ir intensificando o treino até à data de inicio do Caminho. É conveniente também ir treinando, levando às costas a mochila com o peso que pretende carregar, caminhando alternadamente em tipos de piso e relevo diferentes. Por exemplo, cerca de 65% do caminho Real Francês ocorre em trilhos, caminhos de terra batida e de montanha. É também bastante recomendável a realização de exercícios de alongamentos, antes e depois de caminhar. Relativamente à componente psicológica, para quem anda nestas aventuras por gosto, alcançar a necessária disponibilidade mental para um desafio desta natureza é por certo muito mais fácil do que para aqueles que se predispõem a fazê-lo por sacrifício. No meu caso e no dos meus companheiros, já há algum tempo que atingimos esse patamar de plenitude mental, de nos predispormos para este tipo de travessias, em virtude de experiências anteriores, no entanto, cada caso é um caso e é sempre aconselhável adaptarmo-nos a cada nova situação. Pelo que, feitas as contas, o melhor é preparar a mente, aprender a ouvir o corpo, aprender a sentir quais são os limites do corpo, começar devagar. Cada projecto desta natureza é o nosso sonho, devemos ser fiéis ao nosso sonho! Perceber que a força de vontade deve começar a ser exercitada muito antes de se colocar os pés no Caminho de Santiago, daí que o Caminho comece logo quando se toma a decisão de realizá-lo! O nosso poder não está no domínio da distância, mas antes sim, na harmonia com tudo o que nos rodeia, há que desfrutar o máximo do Caminho e de tudo o que o constitui, seja tangível ou intangível! Trata-se de uma oportunidade única para sentir verdadeiramente a natureza, acordar pelo sol e não pelo relógio, comer quando se tem fome e não por imposição de horários, caminhar tanto quanto o corpo nos permita e dormir quando e onde se pode!

A Componente Médica

É sempre recomendável, antes de encetar este tipo de actividade, marcar uma consulta no médico de família, explicar-lhe o que pretende fazer e realizar exames médicos, o chamado “check-up”. Mais se torna aconselhável, senão exigível, para aqueles que padeçam de maleitas crónicas. Na lista do que deve constar na mochila, deve figurar em lugar de destaque um kit de primeiros socorros para prevenir e/ou debelar todo o tipo de mazelas, decorrentes da realização deste tipo de actividade, tais como, as famosíssimas bolhas, queimaduras solares, picadas de insectos, alergias, dores musculares, tendinites, entorses, entre outras.

O Equipamento

Muito haveria para falar sobre o equipamento adequado para estas andanças e certamente este espaço não seria suficiente para enunciar as inúmeras sugestões que existem no mercado para este efeito, pelo que me irei resumir apenas ao que me parece essencial. Para quem deseje mais informação, em relação à roupa ou a outro equipamento, aconselho uma consulta pormenorizada do site: http://www.caminhodesantiago.com/wj.htm. No respeitante ao calçado e dado o piso ser bastante diversificado, aconselho botas de trekking com membrana de Gore-Tex e sola Vibram, indicadas também para condições atmosféricas mais adversas. Para descansar os pés sandálias com as mesmas características, mas de preferência com fivelas rebatíveis, para poderem serem utilizadas como chinelos. Mochila entre os 45 e os 55 litros, em polyester e com ventilação. Saco – cama ultralight, o mais leve e cómodo possível (entre os 600 e os 800 gramas), para ser facilmente transportável na mochila. Esteira (facultativa), chapéu ou boné, um gorro de lã, luvas, 3 pares de meias grossas e 3 pares de meias finas indicadas para high trekking (longas caminhadas), um impermeável com ventilação e um bastão, ajuda bastante nas subidas e descidas e protege-nos contra os cães vadios que proliferam pelo Caminho.

A Componente financeira

Se é verdade que é preciso algum dinheiro para as necessidades diárias do Caminho, também não é menos verdade que este facto não pode servir de desculpa para não o realizarmos. No tal momento especial em que decidimos fazer o Caminho, começamos, de imediato, a juntar dinheiro num mealheiro. Todos os dias à noite, antes de encostarmos a cabeça no travesseiro, é lá que vamos depositar as moedas que sobraram, é fácil e não prejudica o nosso orçamento mensal. A pouco e pouco, o pouco se transformará em muito e no momento de, finalmente, abrirmos a nossa pequena “caixa forte”, vai saber-nos bem ver todas aquelas economias juntas que vão ser, com certeza, uma boa ajuda para fazer face às vicissitudes do Caminho! Aconselha-se o depósito da pequena fortuna no banco e com recurso ao cartão MB ir fazendo os levantamentos necessários pelo Caminho. Levar grandes quantias no bolso não é, de todo, aconselhável pelas razões sobejamente conhecidas.

Texto: Sérgio Cebola

Recurso Internet: http://www.caminhodesantiago.com/wj.htm

Foto: António Pimpão

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Viajar! Perder países!



Viajar! Perder países!
Ser outro constantemente,
Por a alma não ter raízes
De viver de ver somente!

Não pertencer nem a mim!
Ir em frente, ir a seguir
A ausência de ter um fim,
E da ânsia de o conseguir!

Viajar assim é viagem.
Mas faço-o sem ter de meu
Mais que o sonho da passagem.
O resto é só terra e céu.

Fernando Pessoa

Foto: Mosteiro de Oseira, Via da Prata, Caminho de Santiago
Autoria: António Pimpão